A criança ferida e a ressignificação da dor em “A Grande Viagem da Sua Vida”

O cinema, ao longo de sua história, tem se revelado uma ferramenta poderosa para a reflexão psicológica. O filme A Grande Viagem da Sua Vida (2024) apresenta-se como uma narrativa leve e sensível, mas de profunda relevância para psicólogos e estudiosos da mente humana. Em meio às suas imagens e diálogos, encontram-se elementos que remetem à noção da criança ferida, à perpetuação de ciclos familiares e ao processo de ressignificação como caminho de cura e continuidade da jornada existencial.

A criança ferida 

Lise Bourbeau (2014), em sua obra As cinco feridas emocionais, descreve as marcas psíquicas que se instalam na infância a partir de experiências de rejeição, abandono, humilhação, traição e injustiça. Essas feridas, segundo a autora, moldam a forma como o sujeito enxerga a si mesmo e ao mundo, condicionando comportamentos, padrões de relacionamento e até escolhas de vida.

No filme, observa-se que os protagonistas revisitarem situações de dor de sua infância. O exercício narrativo não nomeia tais experiências como feridas, mas simbolicamente as representa: sentimentos de culpa, ausência de reconhecimento, proteção excessiva dos pais e a dificuldade de sentir-se merecedor. Essa dinâmica reflete a necessidade de, mesmo na vida adulta, revisitar a criança interior para acolhê-la e permitir sua ressignificação.

Ressignificação e memória

A psicologia contemporânea reconhece a importância do trabalho com a memória como espaço de reelaboração de experiências traumáticas (BREUER; FREUD, 1895/1996). O filme ilustra de forma sutil a forma como o ser humano pode criar narrativas mentais para lidar com a culpa e a dor, evidenciando que o cérebro não diferencia plenamente memórias reais de experiências imaginárias (KOSSYN et al., 2001). Essa constatação abre espaço para compreender o papel da imaginação na cura, na medida em que experiências criadas ou revisualizadas podem contribuir para a integração de aspectos dissociados do self.

Culpa e ciclos transgeracionais

Outro aspecto importante na narrativa é a presença da culpa, seja pela percepção de que escolhas passadas poderiam ter sido diferentes, seja pela internalização de comportamentos e responsabilidades herdadas dos pais. A psicanálise aponta a culpa como um dos afetos estruturantes da subjetividade, vinculado ao superego e à transmissão intergeracional de mandatos familiares (FREUD, 1923/2011).

O filme demonstra como os ciclos familiares tendem a se repetir até que um sujeito se disponha a romper com tais padrões. A psicologia sistêmica (BOWEN, 1978) já destacava a transmissão de padrões emocionais entre gerações como mecanismo de manutenção da coesão familiar, ao mesmo tempo que fonte de sofrimento individual. Nesse sentido, a possibilidade de revisitar a própria história e reinterpretá-la revela-se fundamental para interromper tais ciclos.

Acolher a dor para seguir adiante

No filme, o protagonista inicialmente demonstra incômodo e dificuldade de compreender a superproteção constante dos pais. A revelação de que, ao nascer, apresentara problemas cardíacos e que os pais haviam feito um juramento entre si de protegê-lo para sempre explica esse comportamento, mas também desperta nele a expectativa de que tivesse sido informado sobre tal situação. Ao reviver simbolicamente esse momento, o protagonista tem a oportunidade de “ser pai de si mesmo” e decidir o que diria à sua versão mais jovem. No entanto, em vez de agir de modo diferente, ele repete as mesmas palavras de seu pai: “você é especial”. Esse gesto indica tanto a continuidade do vínculo quanto o reconhecimento da necessidade de acolhimento.

Na prática clínica, situações como essa podem ser exploradas por meio da técnica do role play, ou dramatização, em que o paciente assume papéis significativos de sua própria história — como o de pai, mãe ou até mesmo de sua criança interior — para reviver, compreender e ressignificar experiências marcantes. O role play é amplamente utilizado em abordagens como a Gestalt-terapia e a psicodrama, possibilitando que o indivíduo acesse emoções reprimidas, amplie sua consciência e ensaie novas formas de lidar com o passado, favorecendo a integração e a cura (PERLS, 1997; MORENO, 1953).

Considerações finais

A Grande Viagem da Sua Vida é mais do que uma narrativa cinematográfica: é uma metáfora poderosa para o trabalho psicológico com a criança feridas, culpa e ciclos familiares. Para psicólogos, o filme constitui-se em recurso útil para a reflexão clínica e pessoal, pois retrata, de forma simbólica, a necessidade de acolher a criança ferida para que seja possível avançar em direção a uma vida mais plena.

Assista e saiba mais:

Referências

BOURBEAU, Lise. As cinco feridas emocionais. 7. ed. São Paulo: Sextante, 2014.

BOWEN, Murray. Family therapy in clinical practice. New York: Jason Aronson, 1978.

BREUER, Josef; FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria (1895). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

FREUD, Sigmund. O ego e o id (1923). São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

KOSSYN, Stephen M. et al. Neural foundations of imagery. Nature Reviews Neuroscience, v. 2, p. 635–642, 2001.

PERLS, Fritz. Gestalt therapy verbatim. Highland, NY: Gestalt Journal Press, 1997.

ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

A Grande Viagem Da Sua Vida: trailer oficial dublado [vídeo]. YouTube, 24 ago. 2025.Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dp3ya02TYLo&t=195s. Acesso em: 23/09/2025.

Foto: Image by Artur Skoniecki from Pixabay

Tathy Neder | Psicóloga | Especialista em consultoria interna e DHO | Coach Executivo | Coach de Carreira | Coach de Equipes e Grupos | Consultora | Facilitadora e Mentora de DHO | Facilitadora de Segurança Psicológica | Chief Happiness Officer

www.coaching4action.com

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